sol2070@velhaestante.com.br reviewed Anna Kariênina by Liev Tolstói
Clássico é clássico
5.0 stars
( sol2070.in/2026/10/anna-karienina-tolstoi )
Além do conto A Morte de Ivan Ilitch, nunca tinha lido o russo Tolstói, talvez pela enormidade dos romances mais consagrados.
Deleitei-me com Anna Kariênina (Анна Каренина, 1878, 808 pgs), na formidável tradução de Rubens Figueiredo.
A estória foca em duas pessoas: a personagem título, mãe de um filho pequeno e esposa de um alto burocrata governamental, e o fazendeiro Liévin. Por trair o marido, Anna vira uma pária na alta sociedade. Liévin prefere distância da cidade e procura uma forma de integrar sua vida no campo beneficiando também as famílias camponesas, sem explorá-las. Esse anseio é quase uma busca espiritual ou existencial.
Longe de mim pretender analisar esse monumento, então me limito a opiniões sobre a pergunta: por que ler esse clássico?
É como uma experiência contemplativa, em outro ritmo, em que o tempo pausa ou fica mais …
( sol2070.in/2026/10/anna-karienina-tolstoi )
Além do conto A Morte de Ivan Ilitch, nunca tinha lido o russo Tolstói, talvez pela enormidade dos romances mais consagrados.
Deleitei-me com Anna Kariênina (Анна Каренина, 1878, 808 pgs), na formidável tradução de Rubens Figueiredo.
A estória foca em duas pessoas: a personagem título, mãe de um filho pequeno e esposa de um alto burocrata governamental, e o fazendeiro Liévin. Por trair o marido, Anna vira uma pária na alta sociedade. Liévin prefere distância da cidade e procura uma forma de integrar sua vida no campo beneficiando também as famílias camponesas, sem explorá-las. Esse anseio é quase uma busca espiritual ou existencial.
Longe de mim pretender analisar esse monumento, então me limito a opiniões sobre a pergunta: por que ler esse clássico?
É como uma experiência contemplativa, em outro ritmo, em que o tempo pausa ou fica mais lento. A elegância da prosa minuciosa e demorada permite isso. Essa redução da velocidade é até terapêutica nos dias de hoje. Contudo, é preciso alguma disciplina para esse exercício. Como abandonar a preocupação em terminar e deixar-se transportar para esse mundo e época.
Realmente é outro mundo. As pessoas não pensam e se comportam mais como no livro. Mesmo assim, em termos de essência humana, é fácil constatar que nada mudou. Estão ali as mesmas angústias, perguntas e dilemas.
A paixão novelesca de Anna envolve e absorve. Eu que não sou do gênero me flagrei capturado e entretido.
Já a estória de Liévin leva também a dimensões sociais, políticas e até espirituais, com boa crítica aos padrões dominantes. No fim da carreira, Tolstói virou cristão anarquista, mais tarde inspirando a formação de comunas e até o líder indiano Gandhi (escritos dessa época estão reunidos em Os Últimos Dias). Sementes dessas ideias já aparecem em Anna Kariênina.
É muito bem arquitetado o contraponto do triângulo de Anna com a busca, também afetiva, de Liévin. Apesar da sugestão de que um lado termina bem e o outro, não, o contraste não é preto no branco. Não há dualismos simplistas, como na vida, se examinada mais a fundo.
Apesar da centralidade de Anna e Liévin, a estória consegue mergulhar ainda nas personagens coadjuvantes, todas muito críveis, sem prejudicar os arcos principais. Na verdade, realça-os, com a maestria que caracteriza obras-primas.
O romance não apenas comove e angustia, também diverte, às vezes levando a gargalhadas.
Comparado com o contemporâneo Dostoiévski, por exemplo, há um senso ético mais claro, razoável e firme, com que me identifiquei mais (adoro Dostoiévski por outros motivos). Ao mesmo tempo que é menos carola, os valores refletidos são mais inspiradores. Talvez isso também possa ser dito sobre propósito.
A conclusão da estória de Anna é das mais marcantes. Difícil de esquecer. Mas apesar de o título referenciá-la, ao final a busca sociopolítica-espiritual de Liévin é o centro filosófico.