sol2070@velhaestante.com.br reviewed Suttree by Cormac McCarthy
Vida nas bordas
5 stars
( sol2070.in/2026/09/suttree-cormac-mccarthy )
Entre os assombrosos romances do estadunidense Cormac McCarthy, Suttree (1979, 560 pgs) consegue ressair.
Difere por se basear menos em enredo ou estória, e mais em personagem. O protagonista-título é um pescador vagabundo numa cidade do sul dos EUA nos anos 50. Vive num barraco flutuante com subsistência mínima mais por opção, em meio a outras figuras marginais, como bêbados, mendigos e proto-golpistas.
Apesar de não haver conversas políticas ou sociais, fica subentendido que Suttree rejeita o estilo de vida padrão. Há um passado sócio-familiar nebuloso e traumático que ecoa nas bordas, sem, contudo, grandes momentos revelatórios.
McCarthy não esconde a influência de William Faulkner, sendo quase uma homenagem. A região, a narração da cidade e as pessoas habitantes em degeneração impressionista, a podridão onipresente. Mas há uma riqueza de humor, cenas semi-pitorescas, apesar de muitas vezes grotescas. Bebedeiras horrendas, camaradagem de reformatório, …
( sol2070.in/2026/09/suttree-cormac-mccarthy )
Entre os assombrosos romances do estadunidense Cormac McCarthy, Suttree (1979, 560 pgs) consegue ressair.
Difere por se basear menos em enredo ou estória, e mais em personagem. O protagonista-título é um pescador vagabundo numa cidade do sul dos EUA nos anos 50. Vive num barraco flutuante com subsistência mínima mais por opção, em meio a outras figuras marginais, como bêbados, mendigos e proto-golpistas.
Apesar de não haver conversas políticas ou sociais, fica subentendido que Suttree rejeita o estilo de vida padrão. Há um passado sócio-familiar nebuloso e traumático que ecoa nas bordas, sem, contudo, grandes momentos revelatórios.
McCarthy não esconde a influência de William Faulkner, sendo quase uma homenagem. A região, a narração da cidade e as pessoas habitantes em degeneração impressionista, a podridão onipresente. Mas há uma riqueza de humor, cenas semi-pitorescas, apesar de muitas vezes grotescas. Bebedeiras horrendas, camaradagem de reformatório, sujeira abjeta, delírios…
Sempre me atinge com força a visão de mundo que exala das entrelinhas do escritor, em que a hostilidade da existência paira como um elemento natural. Mas no romance isso é contrabalanceado pela afabilidade entre essas pessoas das bordas, à margem não apenas por exclusão social, mas também por algum niilismo malandro, ao que parece.
Em romances de McCarthy como os da Trilogia da Fronteira ou Meridiano de Sangue, a dimensão violenta da existência muitas vezes se alterna com o arrebatamento natural, em ângulos existenciais. Já em Suttree, isso não é tão marcante, mesmo com o protagonista vivendo de um rio, entre outras incursões diretas na natureza.
Suttree não chega a ser um anti-herói. Atua com firme senso ético, pelo menos com as pessoas próximas ou similares. Entretanto, alguma canalhice vaza, gerando também conflito na empatia com o personagem.
A prosa é mais experimental do que outros livros de McCarthy, com tempo verbal às vezes saltando para o presente nas ambientações mais amplas do lugar e do clima emocional, e certa fragmentação.
A tradução do escritor Daniel Galera também é impressionante.