Experiência inédita
5 stars
( sol2070.in/site-att/2026-08-passeio-farol.avif )
Uma das experiências literárias mais intensas a que me dediquei: o clássico Passeio ao Farol (To The Lighthouse, 1927, 256 pgs), de Virginia Woolf.
É uma obra de arte magistral, mas me refiro ao processo de leitura. Um escritor que admiro (Jeff Vandermeer) comentou que leu o livro com um vizinho amigo. Liam três ou quatro páginas por dia e se encontravam todo dia por uma hora para debater, muitas vezes, frase por frase. Ao final, teve a impressão que foi o melhor romance que já leu. Sem desmerecer a obra, acredito que a experiência se intensificou muito com esse método.
Comentei admirado isso com uma amiga, dizendo que tinha o livro e que aspirava um dia conseguir lê-lo. Ela me surpreendeu propondo fazermos isso. Topei na hora. Não fizemos todo dia, mas duas vezes por semana, umas oito páginas por vez, …
( sol2070.in/site-att/2026-08-passeio-farol.avif )
Uma das experiências literárias mais intensas a que me dediquei: o clássico Passeio ao Farol (To The Lighthouse, 1927, 256 pgs), de Virginia Woolf.
É uma obra de arte magistral, mas me refiro ao processo de leitura. Um escritor que admiro (Jeff Vandermeer) comentou que leu o livro com um vizinho amigo. Liam três ou quatro páginas por dia e se encontravam todo dia por uma hora para debater, muitas vezes, frase por frase. Ao final, teve a impressão que foi o melhor romance que já leu. Sem desmerecer a obra, acredito que a experiência se intensificou muito com esse método.
Comentei admirado isso com uma amiga, dizendo que tinha o livro e que aspirava um dia conseguir lê-lo. Ela me surpreendeu propondo fazermos isso. Topei na hora. Não fizemos todo dia, mas duas vezes por semana, umas oito páginas por vez, por vários meses. Relíamos tudo em voz alta, parando para admirar, às vezes especular, cada passagem marcante — a poesia arrebata — ou intrigante.
Para isso, foi essencial a tradução de Paulo Henriques Britto, talvez o mais exímio tradutor de literatura em inglês, membro da Academia Brasileira de Letras.
Assim, foi o livro que li com mais dedicação. Recompensa no mesmo nível.
Claro que isso tudo não é necessário para apreciar o romance, mas é daqueles para ser lido como uma contemplação, de entrar nas imagens, sentimentos, cenas e se deixar levar.
A sinopse não importa muito: uma família inglesa relativamente abastada e algumas amizades visitam sua casa de praia em uma ilha escocesa, onde há um farol à vista em um rochedo distante, no início do século 20, antes da Primeira Guerra.
Jamais leria apenas por esse resumo, mas Woolf é daquelas artistas que a gente sonharia em conhecer, conversar, devido ao modo único, praticamente visionário, com que percebe o mundo e as pessoas.
Não é um romance para entreter, de público em geral. Ao mesmo tempo, acho que há pouco "entretenimento" que supere isso.
Margaret Atwood (de O Conto da Aia) escreveu uma crônica sobre a diferença entre ler Passeio ao Farol aos 19 anos, e aos 62. Na juventude, foi insuportável. Depois, reconheceu que faltava-lhe experiência para compreender. Experiências como perda, a inesquecível energia com que certas pessoas impregnam lugares, o próprio passar do tempo… Ela comenta a releitura:
Alguns livros precisam esperar até que você esteja pronta para eles. Tanto, na leitura, é uma questão de sorte. E que sorte acabei de ter!
Também tentei ler Woolf na juventude e, olhando agora, nem sei porque arrisquei.
A exuberante interiorização das personagens, a matéria prima do romance, em si já é um objeto de apreciação rarefeita. Quem não costuma se voltar para examinar as próprias memórias e sentimentos, e como isso se relaciona com tudo, não tem como nem enxergar o que está ali.
Dois terços do livro se passam num único dia, culminando num jantar onde todas se reúnem. Até lá, o ponto de vista vai alternando em ondas, em que as relações e contemplações externas alinham-se com os fluxos de consciência, como numa dança. O movimento vai acumulando ímpeto e energia à medida que se desvelam gradualmente os anseios e visões de mundo individuais e como se encaixam na teia familiar, social e até do espírito do tempo, já que paira a sombra da guerra.
O centro convergente é a matriarca, sra. Ramsay, uma das personagens mais magnéticas que já encontrei. Tem o mesmo efeito entre as pessoas que a conhecem. Enquanto cuida das tarefas familiares e sociais, seus sentimentos oscilam entre êxtases e epifanias semi-místicas — meramente ao contemplar as profundas relações entre as pessoas, natureza e sociedade — e angústias depressivas, ao reconhecer o lado sombrio dessas mesmas relações. Parece haver muito da própria Virginia Woolf nela.
Assim como todas as outras personagens, é um poço de contradições. Despreza a artificialidade do intelectualismo, mas se casou com um filósofo. Afirma frequentemente que o idolatra, mas sua própria presença oprime-a — fica tão ansiosa como na frente de um estranho.
Impressiona como as personagens e seus sentimentos são tão reais e vivos. Durante a leitura e discussão do romance, maravilhava-me o tempo todo em como a escritora domina tanto a técnica literária quanto o talento intransferível, sua alma, de um olhar único e penetrante sobre as pessoas, os próprios sentimentos e pensamentos, e o mundo.
Em outras mãos, um romance sobre o que as pessoas sentem e pensam poderia se arrastar em tédio profundo. Disso, ela consegue criar uma trama envolvente, crescente, repleta de iluminações tocantes e abismos sombrios.
Há também metalinguagem, que discute o próprio processo criativo, a natureza da arte, com a pintora Lily. Nas passagens dela, a prosa se torna nitidamente mais visual, palpável, interdependente, em que tudo se relaciona com tudo. Perto do final, à maneira plástica dela, discorre sobre "a grande pergunta":
Qual o sentido da vida? Era só isso — uma pergunta simples; uma pergunta que tendia a se impor mais e mais com o passar dos anos. A grande revelação jamais viera. A grande revelação talvez jamais viesse. Em lugar dela, havia a cada dia pequenos milagres, iluminações, fósforos riscados inesperadamente na escuridão; este era um deles.
Essa é uma das sensações ao final, de que resvalamos no mistério, iluminado brevemente pelos fósforos cotidianos.