Labririnto recompensador
5 stars
( sol2070.in/2026/08/teoria-casa-de-folhas )
Casa de Folhas (House of Leaves, 2000, 738 pgs), de Mark Z. Danielewski, é um cultuado romance experimental, geralmente classificado como horror. Daqueles poucos livros que são mais como uma experiência, perturbadora e fascinante.
O próprio autor disse que discordava do rótulo horror, que considerava o livro mais como uma "estória de amor". Concordo sobre não ser majoritariamente horror, mas é um amor bem particularizado.
É experimental na forma: um conjunto de manuscritos fragmentados, cheio de notas de rodapé, digressões, com diagramação e tipografia incomuns. O material reúne três (ou quatro) camadas de estórias, uma dentro da outra.
Johnny, um assistente de tatuagem, encontra uma caixa com os escritos de um velho: Zampanò, cujo corpo foi encontrado em condições sinistras. Esses documentos analisam um filme misterioso, supostamente um documentário, que ninguém nunca ouviu falar. Nele, um fotógrafo retirado, Navidson, e sua …
( sol2070.in/2026/08/teoria-casa-de-folhas )
Casa de Folhas (House of Leaves, 2000, 738 pgs), de Mark Z. Danielewski, é um cultuado romance experimental, geralmente classificado como horror. Daqueles poucos livros que são mais como uma experiência, perturbadora e fascinante.
O próprio autor disse que discordava do rótulo horror, que considerava o livro mais como uma "estória de amor". Concordo sobre não ser majoritariamente horror, mas é um amor bem particularizado.
É experimental na forma: um conjunto de manuscritos fragmentados, cheio de notas de rodapé, digressões, com diagramação e tipografia incomuns. O material reúne três (ou quatro) camadas de estórias, uma dentro da outra.
Johnny, um assistente de tatuagem, encontra uma caixa com os escritos de um velho: Zampanò, cujo corpo foi encontrado em condições sinistras. Esses documentos analisam um filme misterioso, supostamente um documentário, que ninguém nunca ouviu falar. Nele, um fotógrafo retirado, Navidson, e sua família se mudam para uma antiga casa isolada, onde surge um corredor impossível, que é mais comprido que a extensão da casa. A coisa vai se transformando, levando a profundidades abissais, e o fotógrafo filma suas explorações. A análise do filme reflete um mundo onde a obra se tornou um fenômeno cultural. Entre diversas outras teorias, é debatido se o registro é uma obra de arte fictícia ou se realmente aconteceu.
Ler o livro é uma experiência que mimetiza a exploração da casa labiríntica, imensa. A sensação é a de adentrar um labirinto narrativo. Outro feito é que, ao mergulhar na leitura, a coisa parece real. Há tantas referências, notas, olhares de terceiros, que isso tudo resulta numa simulação convincente de um mistério sobrenatural real.
Isso é ainda mais impressionante porque desde o início a casa já é apresentada como algo fictício, muito provavelmente. Johnny, o rapaz que encontra os documentos, sabe que nunca existiu esse filme que teria repercutido tanto. Mas fica obcecado. Esse é um tema central: a perturbação mental. Isso cria talvez mais horror do que a casa misteriosa.
Apesar de a casa ser nitidamente alegórica, o modo como o documentário é descrito e analisado é tão metódico que cria a ilusão de realidade. Por isso, também é chamado de romance metalinguístico. É uma estória sobre contar estórias, fraturadas.
As personagens são cativantes, todas marcadas por trauma, perda e perturbação mental em maior ou menor grau. Johnny se vale de drogas e sexo como se não houvesse amanhã, e seu passado, central no livro, vai sendo desvelado aos poucos, também em sua correspondência pessoal, num dos diversos apêndices. Zampanò, o autor da análise, era cego e se recolhia em livros e obsessões. Navidson também foge do passado, assim como sua esposa.
Casa de Folhas é daqueles romances que exigem uma leitura excepcionalmente ativa, uma atitude investigativa. A própria diagramação experimental em algumas partes força isso, incluindo códigos e ovos de páscoa (easter eggs) tipográficos. Por vezes, cansa e exaure. E não entrega respostas prontas. Quem lê é que precisa extrair sentido. Pra mim, foi muito recompensador.
Publicado pela DarkSide Books, só está disponível em uma primorosa versão capa dura (seria impossível transpor seu formato para um ebook), nada barata.
Li no clube Contracapa e recomendo para quem for mergulhar não fazer isso só, já que o livro tem uma dimensão social, que implora para que se converse sobre (vide os diversos fóruns e sites dedicados aos enigmas).
Foi publicado na mesma época do filme A Bruxa de Blair (que nunca vi) e, apesar de alguns paralelos, não teve influência.
Há muitas interpretações possíveis e elas se interpenetram. Abaixo, segue minha favorita.