Ainda melhor do que esperava
5 stars
( sol2070.in/2026/07/philipkdick-labirinto-da-morte/ )
Outro Philip K. Dick que não tinha lido, em ótima tradução de Braulio Tavares[^1]: O Labirinto da Morte (Maze of Death, 1970, 240 pgs). Sabia que esse costuma figurar nas listas de preferidos de fãs, mas superou o que imaginava.
A sinopse não é grande coisa: um grupo de pessoas aparentemente aleatórias vai para Delmak-O, um planeta estranho, onde não sabem o que devem fazer nem o porquê de estarem ali, enquanto algo sinistro se desdobra.
Entre os elementos fascinantes, está a cosmologia especulativa. Nesse futuro distópico, em que a humanidade abandonou a Terra arrasada para espalhar sua miséria pela galáxia, deus já não é uma questão de fé, mas uma realidade física, de intervenções muito palpáveis. Houve contato com diferentes espécies alienígenas, incluindo um ser supremo criador. Preces agora são intermediadas por uma rede de computadores e, através delas, as personagens …
( sol2070.in/2026/07/philipkdick-labirinto-da-morte/ )
Outro Philip K. Dick que não tinha lido, em ótima tradução de Braulio Tavares[^1]: O Labirinto da Morte (Maze of Death, 1970, 240 pgs). Sabia que esse costuma figurar nas listas de preferidos de fãs, mas superou o que imaginava.
A sinopse não é grande coisa: um grupo de pessoas aparentemente aleatórias vai para Delmak-O, um planeta estranho, onde não sabem o que devem fazer nem o porquê de estarem ali, enquanto algo sinistro se desdobra.
Entre os elementos fascinantes, está a cosmologia especulativa. Nesse futuro distópico, em que a humanidade abandonou a Terra arrasada para espalhar sua miséria pela galáxia, deus já não é uma questão de fé, mas uma realidade física, de intervenções muito palpáveis. Houve contato com diferentes espécies alienígenas, incluindo um ser supremo criador. Preces agora são intermediadas por uma rede de computadores e, através delas, as personagens foram parar em Delmak-O, imaginando algo promissor para suas vidas.
Dick criou toda uma teologia pós-contato que fundamenta as aspirações humanas, envolvendo seres interventores, destruidores, salvadores etc. Mas, como em todo dogma, há vozes dissonantes. São realmente divindades supremas? Quem de fato seriam e o que querem?
É uma estória perturbadora, impregnada de surrealismo e absurdo. Uma das mais viajantes entre as mais alucinatórias da ficção científica, gestadas na mente de PKD.
Há muita conexão com um cultuado e saboroso filme de 1999 que revi recentemente: eXistenZ, do grande David Cronenberg. O longa saiu um mês depois do primeiro Matrix e, coincidentemente, os dois tratam de um tema central na obra de Dick: o simulacro (inclusive, é o título de seu romance de 1964, The Simulacra).
eXistenZ foi muito presciente. Imaginado numa época em que smartphones ainda eram ficção, as pessoas aparecem hipnotizadas por mini-tablets e dispositivos eletrônicos que na verdade são parasitas artificiais vivos que invadem o corpo humano, de modo sugestivamente sexual, distorcendo o discernimento sobre realidade e fabricação.
O Labirinto da Morte parece ter sido uma das inspirações centrais para esse filme.
É considerado um dos romances mais sombrios de Philip K. Dick, talvez pelo número maior de mortes, coisa que não costuma figurar em suas estórias. Mas tematicamente não se diferencia de seus outros livros, pelo contrário. É a mesma desconexão das personagens com o que o mundo se tornou, a mesma perplexidade, a mesma sugestão de um horror subjacente e onipresente.
Especialmente no final.