Banquete
5 stars
( sol2070.in/2026/04/o-estranho-e-o-sinistro-mark-fisher/ )
O Estranho e o Sinistro (The Weird and the Eerie, 2016, 168 pgs) reúne 14 ensaios do crítico cultural Mark Fisher sobre a estética do insólito (weird) e do inquietante (eerie) em romances e filmes.
Falecido em 2017, o inglês é muito influente por seu Realismo Capitalista. Suas análises sobre cultura também instigam.
Para quem aprecia ficção especulativa provocadora em prosa ou tela, o livro é daqueles banquetes que continuam nutrindo bem depois.
Na edição em português, "weird" foi traduzido como "estranho". Prefiro "insólito" porque "estranho" é uma palavra tão comum que pode vir já carregada, e também porque o insólito é um subgênero consagrado há quase um século pelas estórias que fundem horror e ficção científica de H.P. Lovecraft.
Na definição de Fisher, o insólito é parente do "unheimlich" de Freud, o "estranho dentro do familiar", com o …
( sol2070.in/2026/04/o-estranho-e-o-sinistro-mark-fisher/ )
O Estranho e o Sinistro (The Weird and the Eerie, 2016, 168 pgs) reúne 14 ensaios do crítico cultural Mark Fisher sobre a estética do insólito (weird) e do inquietante (eerie) em romances e filmes.
Falecido em 2017, o inglês é muito influente por seu Realismo Capitalista. Suas análises sobre cultura também instigam.
Para quem aprecia ficção especulativa provocadora em prosa ou tela, o livro é daqueles banquetes que continuam nutrindo bem depois.
Na edição em português, "weird" foi traduzido como "estranho". Prefiro "insólito" porque "estranho" é uma palavra tão comum que pode vir já carregada, e também porque o insólito é um subgênero consagrado há quase um século pelas estórias que fundem horror e ficção científica de H.P. Lovecraft.
Na definição de Fisher, o insólito é parente do "unheimlich" de Freud, o "estranho dentro do familiar", com o acréscimo de que há uma fusão das perspectivas externa e interna. Por exemplo, o horror cósmico de Lovecraft espelha a angústia existencial da falta de sentido de viver num universo em declínio entrópico[^2].
O primeiro ensaio é dedicado a Lovecraft; o segundo, a H.G. Wells.
Então, vem a banda pós-punk The Fall, uma de minhas favoritas na pré-adolescência, e Tim Powers (não conheço), antes do clássico e lisérgico escritor de ficção científica Philip K. Dick — Fisher examina principalmente o romance [[O Tempo Desconjuntado]].
O texto que fecha a seção insólita mergulha no surrealismo de dois grandes filmes de David Lynch, Mulholland Drive e Império dos Sonhos.
Sobre o inquietante (traduzido como "sinistro"), escreve Fisher (revisão minha de uma tradução automática):
A sensação do inquietante é muito diferente do insólito. A maneira mais simples de chegar a essa diferença é pensar na oposição (altamente carregada de implicações metafísicas) — talvez seja a oposição mais fundamental de todas — entre presença e ausência. Como vimos, o insólito é constituído por uma presença — a presença daquilo que não pertence. Em alguns casos do insólito (aqueles pelos quais Lovecraft era obcecado), o estranho é marcado por uma presença exorbitante, uma proliferação que excede nossa capacidade de representá-la. O inquietante, por contraste, se constitui por uma falha de ausência ou por uma falha de presença. A sensação inquietante ocorre ou quando há algo presente onde não deveria haver nada, ou quando não há nada presente onde deveria haver algo.
Não conhecia muitas das obras comentadas nessa parte do livro. Li mesmo assim. Entre outras, serviu para colocar na lista os romances Surfacing (1972), de Margaret Atwood (de O Conto da Aia), e o clássico Picnic at Hanging Rock (1967), de Joan Lindsay. Nesse ensaio sobre Atwood, também é estudado um dos filmes de alienígenas mais inquietantes e perturbadores: Sob a Pele (Under the Skin, 2013), de Jonathan Glazer, e o romance em que foi baseado, de Michael Faber.
Deu pra perceber que a leitura magnetiza mais quando conhecemos bem as obras analisadas. Como em "Traços alienígenas", sobre os filmes: 2001 de Kubrick, Solaris e Stalker de Tarkovsky (junto com os dois romances em que foram baseados[^1]) e o Interestelar de Nolan. Todos sobre ausências ou presenças perturbadoras.
Li em inglês. A tradução em português saiu bem quando terminava.
Mais sobre a definição de Fisher do insólito e também a conexão psicodélica: [[Mark Fisher e o insólito]].