Clássico choque ontológico
4 stars
( sol2070.in/2026/03/philip-k-dick-tempo-desconjuntado/ )
O Tempo Desconjuntado (Time Out of Joint, 1959, 272 pgs) é um dos romances mais clássicos de Philip K. Dick que não tinha lido.
Em uma idílica cidadezinha dos anos 1950, um veterano de guerra ganha a vida vencendo repetidamente um concurso de quebra-cabeça de jornal, com habilidade anormal. Por vezes, tem experiências perturbadoras, ou talvez surtos, em que parte desse mundo perfeito se desfaz bem na sua frente. Aos poucos, vai descobrindo que outras pessoas notam coisas fora do lugar.
É o grande tema que o seminal escritor mais explorava: a existência pode ser muito mais estranha do que aparenta. Não falta também o eterno anseio de seus protagonistas por um amor último.
Algo que envelheceu mal, não apenas nesse romance, é o modo um tanto condescendente com que o protagonista enxerga mulheres (em sua defesa, poderia ser dito que …
( sol2070.in/2026/03/philip-k-dick-tempo-desconjuntado/ )
O Tempo Desconjuntado (Time Out of Joint, 1959, 272 pgs) é um dos romances mais clássicos de Philip K. Dick que não tinha lido.
Em uma idílica cidadezinha dos anos 1950, um veterano de guerra ganha a vida vencendo repetidamente um concurso de quebra-cabeça de jornal, com habilidade anormal. Por vezes, tem experiências perturbadoras, ou talvez surtos, em que parte desse mundo perfeito se desfaz bem na sua frente. Aos poucos, vai descobrindo que outras pessoas notam coisas fora do lugar.
É o grande tema que o seminal escritor mais explorava: a existência pode ser muito mais estranha do que aparenta. Não falta também o eterno anseio de seus protagonistas por um amor último.
Algo que envelheceu mal, não apenas nesse romance, é o modo um tanto condescendente com que o protagonista enxerga mulheres (em sua defesa, poderia ser dito que está apenas reproduzindo um dos padrões da estória). Não chega a comprometer, as qualidades eclipsam a possível negligência de reproduzir algum estereótipo da época.
Há um filme de Hollywood de amplo sucesso dos anos 90 cujo roteiro, que na época surpreendeu todo mundo, copia uns 80% do enredo (não nomeio para não espoliar). Mas, mesmo já antevendo a linha geral para onde vai a estória, fui capturado.
É surpreendente ter sido publicado em 1959 (sendo escrito, portanto, talvez um ano antes), já que drogas psicodélicas ainda não estavam disseminadas, e o mistério central é fundamentalmente psicodélico.
PKD é minha literatura de conforto, aquilo que pego quando me canso um pouco de livros muito cabeçudos ou quando termino abandonando frustrado vários na sequência. Não tem erro, é diversão garantida.
Ao escolher Time Out of Joint, pesou um ensaio em que Mark Fisher[^1] comenta a obra. Ele aponta, entre outras coisas, como Dick, mesmo escrevendo na própria década, anteviu ponto-a-ponto o formato clichê — estilo restaurante ou parque temáticos — com que os anos 50 seriam eternizados. Como aparece, por exemplo, em filmes de viagem no tempo como De Volta Para o Futuro 1 ou Peggy Sue, Seu Passado a Espera.
Falta pouco para reler ou ler pelo menos os seus 13 romances mais clássicos (com duas exceções, todos estão disponíveis no Brasil):
- ✓ O Homem do Castelo Alto ([[Le Guin sobre 'O Homem do Castelo Alto']])
- ✓ Os Três Estigmas de Palmer Eldritch
- Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (Blade Runner)
- ✓ Ubik ([[Philip K. Dick ficou ruim por ser tão bom]]
- ✓ O Tempo em Marte ([[Boa amostra da ficção delirante de Philip K. Dick]])
- Dr. Bloodmoney
- Espere Agora Pelo Ano Passado
- ✓ [[Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial]]
- ✓ O Homem Duplo
- O Labirinto da Morte
- ✓ VALIS
- ✓ Invasão Divina
- ✓ The Transmigration of Timothy Archer
A lista é da biblioteca de clássicos norte-americanos, apesar de terem ficado de fora alguns queridos como Olho no Céu, Galactic Pot-Healer e Os Clãs da Lua Alfa.
Não sabia que O Tempo Desconjuntado já estava traduzido. Li em inglês.