sol2070@velhaestante.com.br reviewed O mago by Fernando Morais
Vira-páginas
5 stars
( sol2070.in/2026/02/o-mago-paulo-coelho/ )
Um livro que parece destoar dos que costumo comentar: a biografia de Paulo Coelho, O Mago (2008, 640 pgs), de Fernando Morais.
Não destoa tanto, na verdade. O popularíssimo escritor já foi bastante psicodélico e até satanista (tenho lido bastante sobre pacto demoníaco). Apesar de admirar os livros-reportagens de Morais, não sabia que ele havia escrito esse, tendo dedicado mais de quatro anos ao projeto. Teria lido antes.
Faz tempo que estou de olho numa biografia do influente satanista inglês Aleister Crowley, da qual Paulo Coelho foi seguidor. Então passei na frente o brasileiro e não decepcionou. É um vira-páginas imersivo, sobre criatividade, contracultura, distúrbios mentais, drogas, família, ditadura, romances, busca existencial, espiritualidade e a realização da “lenda pessoal” — conforme a terminologia new age do autor.
Quando adolescente, vi Paulo Coelho em uma entrevista na TV falando que o demônio estava …
( sol2070.in/2026/02/o-mago-paulo-coelho/ )
Um livro que parece destoar dos que costumo comentar: a biografia de Paulo Coelho, O Mago (2008, 640 pgs), de Fernando Morais.
Não destoa tanto, na verdade. O popularíssimo escritor já foi bastante psicodélico e até satanista (tenho lido bastante sobre pacto demoníaco). Apesar de admirar os livros-reportagens de Morais, não sabia que ele havia escrito esse, tendo dedicado mais de quatro anos ao projeto. Teria lido antes.
Faz tempo que estou de olho numa biografia do influente satanista inglês Aleister Crowley, da qual Paulo Coelho foi seguidor. Então passei na frente o brasileiro e não decepcionou. É um vira-páginas imersivo, sobre criatividade, contracultura, distúrbios mentais, drogas, família, ditadura, romances, busca existencial, espiritualidade e a realização da “lenda pessoal” — conforme a terminologia new age do autor.
Quando adolescente, vi Paulo Coelho em uma entrevista na TV falando que o demônio estava ocultamente representado entre as personalidades na capa do álbum Sgt Pepper’s dos Beatles. Eu tinha esse vinil e fiquei examinando, especulando quem poderia ser (como não havia internet — só revistas, livros e a turminha do rock —, levei um bom tempo para reconhecer ali Aleister Crowley).
Curioso, peguei o exemplar de minha mãe de Diário de um Mago que imaginei jamais ler e gostei até. Em algum outro livro (talvez Brida), ele menciona sem muitos detalhes experiências visionárias satânicas que compartilhou com Raul Seixas e outras pessoas nos anos 70. Sempre quis saber mais. Agora, sim, matei a curiosidade.
Na época, logo perdi o interesse por Coelho, influenciado pela virulência com que os críticos literários costumavam tratá-lo. Também reconheci que havia excesso de platitudes de autoajuda.
O escritor já vendeu mais 100 milhões de livros no mundo (10 no Brasil), sendo mais traduzido que Shakespeare. É com esse fenômeno massivo de popularidade que a biografia abre, detalhando o cotidiano de estrela pop em turnê do escritor.
Para mim, tal narração logo se tornou maçante, não foi por isso que peguei o livro. Claro que se não fosse o gigantesco sucesso, a biografia nem existiria (não por Fernando Morais, pelo menos). Muitas páginas no início e final se concentram nesse acesso exclusivo ao mundo glamoroso do escritor. Felizmente, o livro se ocupa mais com o coração da história.
Outra qualidade é que, apesar de ser uma biografia autorizada e apoiada, muitas vezes o escritor aparece sob uma lente menos favorável ou reverente, com suas manias, perturbações mentais e emocionais crônicas, e até alguma charlatanice e maucaratismo. Após a publicação, ele chegou a romper com o biógrafo por meses, chocado por não se reconhecer no livro, mas terminaram reatando, sem nenhuma contestação factual.
Na rebeldia do final da adolescência e começo da vida adulta, após bebedeiras e surtos, o escritor chegou a ser internado à força três vezes, pela mãe e pai, num hospital psiquiátrico. Sofria sessões de eletrochoque. Também foi sequestrado e preso pelas forças da ditadura com a primeira esposa. Tais traumas marcaram profundamente Coelho.
A época da prisão coincidiu com seu envolvimento num grupo secreto de seguidores do satanista Aleister Crowley. Também foi logo após a parceria com Raul Seixas começar a, finalmente, engordar sua conta bancária.
Antes da fama, Seixas trabalhava na produção de uma gravadora e, apesar de roqueiro, era um “engomado que não fumava nem cigarro”. Mas adorava discos voadores e conheceu Paulo Coelho procurando-o numa revista esotérica e de OVNIs que o futuro escritor produzia quase sozinho, assinando com diversos pseudônimos. Logo começaram a compor em parceria e Coelho o iniciou nas drogas e no ocultismo satânico.
Tal satanismo não era exatamente o que costumava ser demonizado na mídia: sacrifícios humanos sob luz vermelha, possessões, transfigurações monstruosas etc. Era sobre a prática de rituais mágicos, que incluiam o lado demoníaco talvez mais como oposição e revolta aos valores religiosos conservadores dominantes. Por isso, nos anos 60 e 70, o satanismo de figuras como Crowley grudou na contracultura roqueira.
Mas, em sua experiência, Paulo Coelho chegou perto de efetivar um pacto, além de facilitar o engajamento de pessoas em práticas “satânicas” sem que elas soubessem — como na canção com Raul Seixas “Sociedade alternativa”.
A coisa veio buscá-lo, aí sim como nos filmes de terror.
Depois disso, não quis mais saber do caminho das trevas. Só que deixar isso totalmente para trás não seria tão fácil.
Viajando pela Europa, conheceu a pessoa que iria guiá-lo espiritualmente e adentrou a ordem secreta de magia cristã que figura misteriosamente em seus livros. Esse é outro lado bastante revelador da biografia, que esclarece muito mais do que seus livros.
O sonho obsessivo que acompanha Coelho desde a adolescência é o sucesso mundial como escritor, sendo esse o arco mais central da história.
Apesar de não pretender ir atrás dos outros livros de Paulo Coelho, além dos dois ou três que li lá atrás, a biografia valeu, prendendo como poucos livros.