Só fui entender agora
5 stars
( sol2070.in/2026/05/cem-anos-de-solidao-final/ )
Terminando o clássico do colombiano Gabriel García Márquez Cem Anos de Solidão (967, 448 pgs) fiquei intrigado com a moralidade ambígua do final. Parece haver um tom moralista que contradiz toda a obra.
Uma das muitas proezas desse que é considerado um dos maiores romances em espanhol de todos os tempos é o apelo múltiplo de suas camadas, agradando tanto pelo pitoresco quanto pelos níveis profundos. Como diz Mario Vargas Lhosa (em García Marquez – História de um Deicídio):
Outra expressão dessa totalidade é sua acessibilidade ilimitada, sua capacidade de estar ao alcance — com recompensas diferentes, mas abundantes para cada um — do leitor inteligente e do imbecil, do refinado que saboreia a prosa, contempla a arquitetura e decifra os símbolos de uma ficção e do impaciente que só atenta para a anedota crua. O gênio literário de nosso tempo costuma …
( sol2070.in/2026/05/cem-anos-de-solidao-final/ )
Terminando o clássico do colombiano Gabriel García Márquez Cem Anos de Solidão (967, 448 pgs) fiquei intrigado com a moralidade ambígua do final. Parece haver um tom moralista que contradiz toda a obra.
Uma das muitas proezas desse que é considerado um dos maiores romances em espanhol de todos os tempos é o apelo múltiplo de suas camadas, agradando tanto pelo pitoresco quanto pelos níveis profundos. Como diz Mario Vargas Lhosa (em García Marquez – História de um Deicídio):
Outra expressão dessa totalidade é sua acessibilidade ilimitada, sua capacidade de estar ao alcance — com recompensas diferentes, mas abundantes para cada um — do leitor inteligente e do imbecil, do refinado que saboreia a prosa, contempla a arquitetura e decifra os símbolos de uma ficção e do impaciente que só atenta para a anedota crua. O gênio literário de nosso tempo costuma ser hermético, minoritário e desesperador. Cem anos de solidão é um dos raros casos de obra literária contemporânea maior que todos conseguem entender e fruir.
Na juventude, adorei Cem Anos de Solidão como esse "leitor imbecil". Era muito engraçado, surreal, e nunca esqueci as cenas eróticas.
O que me fascinou desta vez foi a colossal tristeza que paira muito bem camuflada pelo humor, além do estilo narrativo, mais significativo do que aparenta.
Para quem escreve ficção, há um clássico mandamento: "mostre, não conte" (show, don't tell). Por exemplo, em vez de dizer "Renata era uma mulher fria", é muito melhor escrever uma cena vivida, experienciada, em que ela mostra a frieza. García Marquez chuta longe essa regra, de um modo que só mestres são capazes. O romance é praticamente inteiro contado, em vez de as cenas serem mais vividas e experienciadas pelas personagens. Há um motivo central para isso: a identidade do narrador.
Cem Anos de Solidão narra sete gerações da família Buendía-Iguarán, desde o século 19, e a cidade que fundam, Macondo. Apesar do burlesco abundante, é uma grande tragédia, de dimensão bíblica. Não falta incesto, violência, sexo, ressentimento incurável, amores iludidos e, claro, solidão. Também é uma obra-prima do realismo mágico, em que uma bela moça ascende aos céus, um filete de sangue percorre as ruas até a mãe da vítima, animais se reproduzem aceleradamente, gente se alimenta de cal e terra, uma epidemia de insônia imbeciliza todo mundo etc.
Voltando à conclusão (alerta de "spoiler" sobre o final famoso há 60 anos), fiquei intrigado pelo fato de Macondo ter sido varrida do mapa com o último Buendía por um "furacão bíblico", porque "estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra". Inicialmente, soou como a megalomania punitiva da estória de Sodoma e Gomorra.
Afinal, passamos a amar essas personagens. Sim, cometem muitos erros, mas humanos. Incesto e ressentimento são mais intensos, mas a ponto de merecerem esse castigo monumental?
Uma interpretação comum é que as pessoas dessa família não aprendiam, se fechavam em si e em relações incestuosas, vivendo num tipo de isolamento e fuga. Esses seriam os erros que as condenaram. Só que elas não têm culpa de nada, porque a condenação ocorreu lá atrás com o primeiro casal. Uma condenação a cem anos de solidão implica que o crime ocorreu no ano zero.
Tal moralismo não fecha bem com o tom do romance, que em muitas passagens celebra a vida, mesmo nas piores condições. Fiquei pensando também no sábio cigano Melquíades. Como foi ele quem escreveu o livro que lemos, a condenação na verdade deve ser a sua interpretação. Tal atitude julgadora, sim, combina com ele, uma figura semi-divina, apartada do mundo. Mas também nem tanto, porque foi ele também que escreveu todas as outras passagens mais efusivas, cheias de sexo, desejo, descomedimento.
A perplexidade provocada pelo final, induzindo certa revolta com a injustiça cósmica, termina atuando como outra expressão da genialidade literária. Leva à revisão de toda a estória, das personagens. Ao fazer isso, quase tudo se encaixou sim para mim.
O grande erro foi do casal inicial. José Arcádio Buendía assassinou o homem que ofendeu sua virilidade. Passou a ser assombrado. Então, fugiu para um lugar isolado de tudo, com a esposa-prima Úrsula, para não ter quer que lidar com as consequências. Assim, nasceu Macondo. Na verdade, a condenação à solidão foi o próprio casal que se auto-impôs. Daí vem a repetição dos nomes na descendência, e dos mesmos comportamentos. Algumas das pessoas da família percebem que estão presas num ciclo, onde o tempo não corre, onde se cria para desfazer e começar tudo de novo, indefinidamente. Todas elas são reflexos do casal inicial. No final, Macondo é referida como a "cidade dos espelhos (ou das miragens)".
O ciclo só termina quando o último Aureliano compreende, lendo a própria estória que temos nas mãos.
Ainda assim, o desfecho trágico assombra. Porque os Buendía em muitos aspectos são um microcosmo da humanidade. García Marquéz tentou aliviar essa impressão, no final do discurso em que recebeu o Nobel de literatura, em 1982, em que aspira por:
Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.