Marte reviewed A unicórnia preta by Audre Lorde
5 stars
Meus primeiros contatos com o nome de Audre Lorde foram estabelecidos ainda na minha adolescência, interessada que eu estava no mundo feminista. Na mesma época, li bell hooks e fui exposta a contribuições feministas de segunda onda. Entretanto, essa é a primeira obra de Lorde a qual eu realmente leio, e foi importante esse espaço no tempo justamente porque poesia não é meu lugar confortável na literatura. Prosa é muito mais minha praia, tanto para escrever, quanto para ler. Daí que o tempo me deu uma maturidade maior para apreciar adequadamente Audre Lorde.
Lorde se apresenta como mulher preta, lésbica, mãe, poeta, feminista, nas muitas entrevistas que deu durante a vida, sempre se autoestabelecendo antes de ser estabelecida pelos outros. Daí que sua obra seja profundamente impactada por essas identidades autopronunciadas. A unicórnia preta dispõe em cinco partes uma poesia pungente, que a autora faz questão de ressaltar, num …
Meus primeiros contatos com o nome de Audre Lorde foram estabelecidos ainda na minha adolescência, interessada que eu estava no mundo feminista. Na mesma época, li bell hooks e fui exposta a contribuições feministas de segunda onda. Entretanto, essa é a primeira obra de Lorde a qual eu realmente leio, e foi importante esse espaço no tempo justamente porque poesia não é meu lugar confortável na literatura. Prosa é muito mais minha praia, tanto para escrever, quanto para ler. Daí que o tempo me deu uma maturidade maior para apreciar adequadamente Audre Lorde.
Lorde se apresenta como mulher preta, lésbica, mãe, poeta, feminista, nas muitas entrevistas que deu durante a vida, sempre se autoestabelecendo antes de ser estabelecida pelos outros. Daí que sua obra seja profundamente impactada por essas identidades autopronunciadas. A unicórnia preta dispõe em cinco partes uma poesia pungente, que a autora faz questão de ressaltar, num trecho de "Poder":
The difference between poetry and rhetoric is being ready to kill yourself instead of your children.
A introdução do livro, de Jess Oliveira, professore do Instituto de Letras da UFBA, é bastante pertinente e informativa. Dela, aproveito uma explicação: a poesia do livro é permeada pela inadequação sentida por Lorde dentro do feminismo branco estadunidense, notavelmente atravessado pelo racismo, e também do movimento negro, frequentemente capitaneado por homens e mulheres pretas coniventes com lesbofobia. O nome da própria obra é relacionado a essa marcação pela diferença, conforme ressoa no poema A unicórnia preta:
The black unicorn was mistaken for a shadow or symbol and taken through a cold country where mist painted mockeries of my fury.
É notável, durante a obra, a influência direta dos anos que antecederam a escrita do livro. Esse espaço foi dado a partir duma viagem à costa da África Ocidental, mais especificamente, os países Togo, Gana e Benin, então nomeado Daomé, e outra à Nigéria. Ali, de acordo com a contribuição de Stephanie Ribeiro, temos indícios de que Lorde tenha tido contato com religiões de cosmogonia iorubá, fon e tenda, nas figuras de orixás e voduns. Inclusive, ela acrescenta um glossário sobre esses termos ao final do livro, o qual a tradutora optou por manter como estava escrito ao invés de promover pequenas correções nas definições mitológicas. Essa perspectiva cosmológica está presente diversas vezes no livro, conforme vemos em Daomé:
In the dooryard of the brass workers four women joined together dying cloth mock Eshu's iron quiver standing erect and flamingly familiar in their dooryard mute as a porcupine in a forest of lead In the courtyard of the cloth workers other brothers and nephews are stitching bright tapestries into tales of blood.
Além disso, a obra de Audre Lorde é inseparável de sua lesbianidade. Lorde amou mulheres e dedica parte de sua obra a celebrar os relacionamentos lésbicos, especialmente entre mulheres pretas. É sempre uma dádiva ler escritos que não centrem a heterossexualidade, especialmente a heterossexualidade branca, em seus afetos. Um trecho particularmente bonito está em Os limites do nosso quintal:
The sun is watery warm our voices seem too loud for this small yard too tentative for women so in love the siding has come loose in spots our footsteps hold this place together as our place our joint decisions make the possible whole. I do not know when we shall laugh again but next week we will spade up another plot for this spring's seeding.
Mas o meu poema preferido, foi, de longe, Poder, o qual já citei anteriormente. Nele, Audre Lorde compõe com a fúria de uma mãe denunciando o racismo institucional, a violência racista da polícia e encerra de forma brutal:
Eu não tenho sido capaz de tocar a destruição dentro de mim. Mas a menos que eu aprenda a usar a diferença entre poesia e retórica meu poder também será corrompido como um fungo venenoso ou irá prostrar-se debilitado e inútil como um fio desconectado e um dia pegarei meu aparelho antigo e o ligarei na tomada mais próxima estuprando uma mulher branca de 85 anos que é a mãe de alguém enquanto a espanco até que desfaleça e ponha fogo na cama dela um coro grego estará cantando no compasso 3/4 "Coitadinha. Ela nunca machucou ninguém. Eles são uns animais."
Para finalizar, essa edição da Editora Relicário conta com o texto original, em inglês estadunidense, e a tradução de Stephanie Ribeiro, página a página. Eu não entendo de poesia, nem sou inteirada de tradução. Dados esses parêntesis necessários, eu preferi ler em inglês, apesar de precisar parar para consultar uma palavra ou outra no dicionário. A musicalidade simplesmente fluiu melhor em inglês, para mim. No começo, essa leitura, até por ser uma aventura em inglês, foi meio engasgada. Depois, lá pela parte três, já estava fluindo naturalmente. Enfim, quero muito conhecer mais da literatura poética de Audre Lorde, me senti bastante tocada por esse livro.