Vira-página ambiental
4.0 stars
( sol2070.in/2026/10/a-costa-selvagem-charlotte-mcconaghy )
Outra ficção climática vira-página de Charlotte McConaghy: A Costa Selvagem (Wild Dark Shore, 2025, 320 pgs).
Os mais recentes romances da australiana são todos thrillers ambientais, enriquecidos com sentimento e dimensões psicológicas. Venderam bastante pelo mundo, talvez por seu apelo excepcional nesta era de colapso.
Em um futuro próximo, um viúvo vive com uma filha e dois filhos numa ilha ao sul da Austrália no Oceano Antártico, onde uma das últimas arcas de preservação de sementes está ameaçada pelo aumento do nível do mar (inspirado pelo que aconteceu com uma arca similar na Noruega). Também é um dos últimos refúgios de vida selvagem exuberante. Quando uma náufraga misteriosa chega, suspeitas mútuas se instauram.
Os capítulos se alternam entre cada personagem, com destaque em primeira pessoa para o pai e a mulher. Vários elementos capturam e absorvem para dentro do livro: o …
( sol2070.in/2026/10/a-costa-selvagem-charlotte-mcconaghy )
Outra ficção climática vira-página de Charlotte McConaghy: A Costa Selvagem (Wild Dark Shore, 2025, 320 pgs).
Os mais recentes romances da australiana são todos thrillers ambientais, enriquecidos com sentimento e dimensões psicológicas. Venderam bastante pelo mundo, talvez por seu apelo excepcional nesta era de colapso.
Em um futuro próximo, um viúvo vive com uma filha e dois filhos numa ilha ao sul da Austrália no Oceano Antártico, onde uma das últimas arcas de preservação de sementes está ameaçada pelo aumento do nível do mar (inspirado pelo que aconteceu com uma arca similar na Noruega). Também é um dos últimos refúgios de vida selvagem exuberante. Quando uma náufraga misteriosa chega, suspeitas mútuas se instauram.
Os capítulos se alternam entre cada personagem, com destaque em primeira pessoa para o pai e a mulher. Vários elementos capturam e absorvem para dentro do livro: o clima urgente de contagem regressiva, a incerteza sobre o que está acontecendo com o mundo além da ilha, traumas passados, a beleza imersiva daquela bolha de vida no fim do mundo, o amor e suas barreiras, e principalmente o mistério sobre o que aconteceu na ilha e com cada uma.
Apesar de esse último ponto ser o principal fator de suspense e antecipação, termina um pouco forçado. As personagens já sabem o que quem lê deseja intensamente saber. Entramos nos pensamentos, mas a memória sobre esses mistérios passados é oculta de modo artificial.
Essa e outras falhas, comuns em romances voltados ao grande público, não chegam a estragar. Apequenam-se diante das qualidades. A principal talvez seja a evocação de um maravilhamento transcendente pela natureza, além de transmitir de modo visceral a imensa tragédia de sua perda.
Apesar da aura apocalíptica, poderia ser dito que é uma estória sobre amor, em sua dimensão fractal.
O cenário isolado e restrito, com apenas quatro pessoas, também cria uma aura mítica, como se fossem os últimos humanos, todos bastante representativos não só da riqueza interior humana, mas de potenciais surpreendentes.
A mão um pouco carregada no suspense inevitavelmente leva a ficarmos antecipando como será o fim, mas a conclusão quebra todas as expectativas, em direção a sentimentos vastos como a própria natureza. Realmente memorável.
A tradução não é das melhores. Quem lê em inglês, recomendo o original. Contudo, como é um vira-página, esse problema fica menos evidente.
Li no clube Contracapa.
Sobre outro romance da autora: [[Migrações]].