Inspira
5.0 stars
( sol2070.in/2026/10/devoradoras-de-luz )
Sempre leio não ficção sobre plantas e natureza. Devoradoras de Luz (The Light Eaters, 2024, 288 pgs), de Zoë Schlanger, fica no topo.
Jornalista especializada em ambiente, ela sofreu um esgotamento ao cobrir por anos e anos o atual colapso natural. Largou o emprego e mergulhou na pesquisa profunda de sua paixão, plantas.
O intenso envolvimento emocional e existencial da autora com seu tema é um bálsamo em relação às narrativas mais frias e distantes do tema. Mas ela não se esquiva da ciência, de ponta, sobre a senciência, inteligência e talvez até consciência vegetais.
E também outros sentidos, como a visão da trepadeira chilena Boquila trifoliolata, que "escaneia" e copia com precisão suas plantas hospedeiras ou próximas. Há um fascinante capítulo sobre essa descoberta recente, que envolve um brasileiro1.
A inteligência do mundo vegetal atravessa toda a …
( sol2070.in/2026/10/devoradoras-de-luz )
Sempre leio não ficção sobre plantas e natureza. Devoradoras de Luz (The Light Eaters, 2024, 288 pgs), de Zoë Schlanger, fica no topo.
Jornalista especializada em ambiente, ela sofreu um esgotamento ao cobrir por anos e anos o atual colapso natural. Largou o emprego e mergulhou na pesquisa profunda de sua paixão, plantas.
O intenso envolvimento emocional e existencial da autora com seu tema é um bálsamo em relação às narrativas mais frias e distantes do tema. Mas ela não se esquiva da ciência, de ponta, sobre a senciência, inteligência e talvez até consciência vegetais.
E também outros sentidos, como a visão da trepadeira chilena Boquila trifoliolata, que "escaneia" e copia com precisão suas plantas hospedeiras ou próximas. Há um fascinante capítulo sobre essa descoberta recente, que envolve um brasileiro1.
A inteligência do mundo vegetal atravessa toda a reportagem. Apesar de haver algum consenso entre quem estuda esse tipo de comportamento, ainda é um tabu falar isso com todas as letras. Cientistas da área precisam camuflar a linguagem para evitar ostracismo e ridicularização.
A biologia predominante não consegue deslocar a centralidade do ser humano como referência para o estudo de outros organismos. Ao ouvir sobre "inteligência vegetal", ainda se imagina a sugestão de uma ofensiva correspondência entre a capacidade intelectual humana e plantas. Mas o modelo humano está longe de ser único. O livro vem recheado de exemplos fascinantes.
Mesmo sendo um dos temas que mais acompanho, saí da leitura com humilde deslumbre pelo tanto de novidade.
Meu romance preferido sobre natureza é [[A Trama das Árvores]], de Richard Powers. Tem ali um livro dentro do livro que até vira personagem, de tanto que influencia a estória. Uma bióloga escreve esse livro de divulgação científica cheio de maravilhamento, assombro e devoção ao mundo vegetal, cujos trechos são reproduzidos na narrativa. Começa assim:
Você e a árvore do seu quintal vêm de um ancestral comum. Há um bilhão e meio de anos, vocês dois seguiram caminhos diferentes. Mas mesmo agora, após uma imensa jornada em direções separadas, você e a árvore ainda compartilham um quarto dos genes…
É tão inspirador que ficava imaginando que um livro assim tinha que ser escrito de fato. Procurei e li várias obras nesse molde. Devoradoras de Luz foi a que mais se aproximou desse nível de transmissão.
Estava no meu radar desde que ouvi essa entrevista com a autora (em inglês).
Ela diz lá:
Penso que quanto mais tempo dedicarmos considerando os modos como nossas vidas estão absolutamente entrelaçadas com o não humano, mais nos recolocamos em nosso lugar de direito no mundo, não nos termos desse ápice de alguma hierarquia evolutiva, mas sim como mais um nó de criatividade biológica.
A visão preconceituosa de boa parte da ciência sobre as novas habilidades vegetais sendo descobertas ficou bem ilustrada pelo prêmio IgNobel dado em 2024 ao biólogo brasileiro que demonstrou a percepção visual minuciosa dessa planta. Apesar de o prêmio não necessariamente significar inutilidade, ainda assim aplica um rótulo de piada.↩