Excelente
5 stars
As leituras antropológicas me fascinam. Davi Kopenawa, Bruce Albert @ A queda do céu segue sendo meu livro preferido. Daí que eu peguei The mushroom at the end of the world esquecendo se tratar dum livro de antropologia. E daí, também, que eu tenha me surpreendido positivamente. Tsing relata seu campo relativo à cadeia comercial do cogumelo matsutake, muito apreciado no Japão. Seu campo ocorre em diversos lugares, como Yunnan (China), Japão central, Lapland (Finlândia) e Oregon a leste (EUA).
Críticas ao livro de Tsing chegaram a mim antes dos elogios, principalmente relativas a uma possível ideia de otimismo em relação à precariedade das relações econômicas no "fim do mundo". Não entendi assim ao ler o livro efetivamente. Provavelmente, as críticas chegam mais por pessoas desacostumadas com as leituras antropológicas – eu poderia tranquilamente ser uma delas, mas entendi outra coisa do livro, mesmo assim.
O trabalho descritivo …
As leituras antropológicas me fascinam. Davi Kopenawa, Bruce Albert @ A queda do céu segue sendo meu livro preferido. Daí que eu peguei The mushroom at the end of the world esquecendo se tratar dum livro de antropologia. E daí, também, que eu tenha me surpreendido positivamente. Tsing relata seu campo relativo à cadeia comercial do cogumelo matsutake, muito apreciado no Japão. Seu campo ocorre em diversos lugares, como Yunnan (China), Japão central, Lapland (Finlândia) e Oregon a leste (EUA).
Críticas ao livro de Tsing chegaram a mim antes dos elogios, principalmente relativas a uma possível ideia de otimismo em relação à precariedade das relações econômicas no "fim do mundo". Não entendi assim ao ler o livro efetivamente. Provavelmente, as críticas chegam mais por pessoas desacostumadas com as leituras antropológicas – eu poderia tranquilamente ser uma delas, mas entendi outra coisa do livro, mesmo assim.
O trabalho descritivo de Tsing é incrível, o que pode ajudar a dar esse ar de exótico e inusitado nas relações precárias que caracterizam o capitalismo tardio. Mas a própria autora ressalta que o trabalho descritivo é uma ferramenta injustamente desperdiçada pela ciência ocidental, acenando para as contribuições de micólogos japoneses acerca do matsutake (e outros fungos). Frequentemente, seus trabalhos são criticados por pares ocidentalizados como "descritivos demais". Tsing afasta essa crítica e abraça a categorização e descrição como atividades nas quais os antropólogos navegam com tranquilidade – e onde mais têm a contribuir. Essa é parte do motivo do meu encantamento com a antropologia.
Outro aspecto do trabalho de Tsing que me satisfez foram os capítulos dedicados a explicar a biologia do fungo, escapando aos limites da ciência tradicional, cada vez mais especializada. A autora não foge à dificuldade da interdisciplinaridade num contexto de antropologia ensimesmada. Aliás, as reflexões dela sobre a diversidade biológica dos fungos deram bastante material para eu pensar: nossa biologia é tão dependente da (suposta) realidade humana! A reprodução sexuada é uma das possibilidades dos fungos, mas nem de longe a prevalente! Aqui, é o reino dos indivíduos assexuados, que existem enquanto mônada, em que espécie e indivíduo são limites completamente esgarçados. Tsing não recorre ao vacilo de alegar que podemos transpor as categorias da micologia à antropologia (ou à economia) livremente, mas levanta as dificuldades engessadas da ciência moderna, dando o benefício da dúvida.
Das florestas, eu já sabia que a ideia da Amazônia como paraíso intocado por gente era falsa, mas é interessante reparar como esse assunto se repete noutros contextos e florestas. De norte a sul, a ideia da floresta conservacionista é um devaneio que, na verdade, promete matar as florestas conforme as conhecemos. Nosso ideal de floresta é uma teia de colaborações entre todo tipo de gente (humana e não-humana), reiteradamente comprovado por cientistas ocidentais ou não.
Chamou minha atenção também a aproximação das experiências Asian-American em toda sua diversidade. Japanese-Americans e imigrantes do Sudeste Asiático não conversam entre si. Tsing, sino-americana ela própria, reconhece-se muito mais no mundo Japanese-American, atravessado diretamente pela Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. São experiências de completa assimilação, de esconder sua herança cultural, de recusar o aprendizado do idioma original por parte dos filhos... experiências diferentes da entrada dos imigrantes do Sudeste Asiático nos EUA, muito mais relacionadas a exílio de países comunistas e abraço dos ideais neoliberais dos anos 1980 em frente. São mundos com os quais eu não tenho muita familiaridade, portanto, foi interessante ler o relato diretamente duma antropóloga sino-americana que se interessa pelas populações citadas.
Por último, gostaria de ressaltar a importância do foco na tradução nas relações econômicas, parte do que Tsing descreve como salvage economy. A tradução entre culturas não é exclusividade da salvage economy, mas nesse contexto é essencial para extrair o capital de relações aparentemente despidas dele. De alguma forma, me lembra as contribuições de Gramsci sobre tradutibilidade de conceitos revolucionários, mas, obviamente, em outro contexto.
Falando em vínculos com outras mídias, fui o tempo inteiro lembrada da dupla de filmes Little Forest, também. Esses dois filmes japoneses, focados na beleza da distinção clara das quatro estações no Japão central, não foram citados no livro, mas a política por trás das satoyama forests demonstra para mim que o filme não existe num vácuo puramente existencial, mas faz referência a essa nostalgia das florestas japonesas e às tensões campo-cidade, tão fortes por lá.