sol2070@velhaestante.com.br reviewed Um Outro Amor by Karl Ove Knausgaard (Minha Luta, #2)
Honestidade quase masoquista
5 stars
No segundo volume da série Minha Luta, Um Outro Amor (2009), Karl Ove Knausgaard se concentra na relação com a segunda esposa e a chegada das crianças.
Que alívio descartar a suspeita de que era uma história romântica!
Por outro lado, senti uma mudança de perspectiva que faz o autor parecer bastante idiota, com alguns preconceitos e idealismos tolos. Mesmo assim, foi um capítulo e tanto dessa série de memórias escritas como um romance. Como li também toda sua ficção já traduzida em inglês, não deixo de me impressionar em como aquilo que conta não se diferencia em nada das cenas de seus romances.
No primeiro volume, [[A Morte do Pai]], muito gira em torno de como a severidade mórbida do pai definiu para sempre seus medos patológicos. Apesar de absolutamente não ficar se vitimizando, inevitavelmente aparece assim um pouco. Desperta simpatia.
Já neste, o …
No segundo volume da série Minha Luta, Um Outro Amor (2009), Karl Ove Knausgaard se concentra na relação com a segunda esposa e a chegada das crianças.
Que alívio descartar a suspeita de que era uma história romântica!
Por outro lado, senti uma mudança de perspectiva que faz o autor parecer bastante idiota, com alguns preconceitos e idealismos tolos. Mesmo assim, foi um capítulo e tanto dessa série de memórias escritas como um romance. Como li também toda sua ficção já traduzida em inglês, não deixo de me impressionar em como aquilo que conta não se diferencia em nada das cenas de seus romances.
No primeiro volume, [[A Morte do Pai]], muito gira em torno de como a severidade mórbida do pai definiu para sempre seus medos patológicos. Apesar de absolutamente não ficar se vitimizando, inevitavelmente aparece assim um pouco. Desperta simpatia.
Já neste, o convoluto processo da morte do pai, em tese, ficou para trás. A jornada agora é se adaptar à vida doméstica. Contudo, se identificar com alguém que fica reclamando da família porque quer escrever é mais difícil.
Vale pela honestidade quase masoquista. Ele não se faz de elevado e eminente, não esconde a canalhice. Na verdade, tem uma consciência aguda dela e essa talvez seja sua principal luta. Confessa que tudo o que queria (além de poder se dedicar à literatura) é ser uma pessoa boa, e acredita não conseguir, mesmo que suas ações não incluam baixezas de fato. Parece que o nome da série, "Minha luta", o mesmo da autobiografia de Hitler, faz piada com isso — não foi bem recebida. Internamente, se acha um grande vilão.
Por isso mesmo, acaba sendo viciante ler uma descrição tão eloquente e profunda das próprias fraquezas e vícios, pois são mais universais do que ele talvez imaginava. Como uma crítica na New Republic colocou:
… ler Minha Luta é como abrir o diário de alguém e encontrar os seus próprios segredos… Homens e mulheres adultos têm a mesma relação com Minha Luta que tinham com o Nirvana quando eram adolescentes.
O título deste volume, Um Outro Amor, é bem fiel. Não é o tipo de estória de amor que se banalizou. Apesar do êxtase transitório da paixão estar muito bem retratado, além de eventuais harmonia e paz na nova família, parece haver mais brigas e angústias. Também fala muito do, antes inimaginável, amor sublime pelas filhas e filho, com uma voz sem igual.
Também não faltam suas tradicionais digressões artísticas, existenciais e as epifanias com a existência — quem aguentaria ler 600 páginas de rotinas domésticas?
Comentando o livro anterior, mencionei minha alergia a livros sobre as "pseudo-angústias de artistas em seu privilegiado mundo à parte da maioria das pessoas", que felizmente não era o caso. Já neste não há como negar: sobra isso. Mas acaba sendo cômico de tão escrupuloso. A autodepreciação vira um tipo de música. Não que ele seja um masoquista que adora se rebaixar e se punir, nada disso. É que coloca um microscópio nos próprios sentimentos e frustrações — conseguia me enxergar ali.
Essa minha alergia vem de romances de pessoas em tese adultas (mais de 30 anos), geralmente homens brancos privilegiados, que ficam descrevendo anseios e frustrações amorosas como se tivessem quinze anos. Não entendo muito porque esse tipo de literatura muitas vezes é levado em alta conta, até hoje. Não é o caso de Knausgaard. Por isso, gostei especialmente, já que evito essas estórias e, então, tudo parece saltar com vida.
Em alguns momentos, com todas as forças, odeia a esposa, a filha recém-nascida, a rotina doméstica. É assim e pronto, não fica se justificando, posando de correto, nem tentando entender (não estou elogiando o ódio, mas a honestidade com os próprios sentimentos).
Para quem aprecia a ficção do autor, como o romance bíblico A Time for Everything ([[Degeneração divina]]) ou a quarta parte da série mais fantástica Estrela da Manhã, The School of Night ([[Releitura do pacto demoníaco]]), este volume tem passagens saborosas. Como o tumultuado e longo processo que o levou aos anjos do primeiro, além da origem de cenas e personagens, ou de onde vem a canalhice do protagonista do segundo — imaginava que o personagem era na maior parte ficção, mas é ele mesmo. Também sente que vendeu a alma.
E aparece o encadeamento para o início da própria série de autoficção. Vinha tentando iniciar um romance há anos, escrevendo todo dia. Nada prestava. Começou a rememorar acontecimentos da infância mais como um exercício e sentiu que aquilo, sim, pulsava com vida própria.
Há quem não goste dessa nova onda de autoficção em que Knausgaard é um grande exemplo, talvez menos pelo texto do que pela indulgência de alguém que fica falando apenas de si.
Mas, com tal talento, só posso elogiar.