sol2070@velhaestante.com.br reviewed A Morte do Pai by Karl Ove Knausgaard (Minha Luta, #1)
Arte de narrar memórias
5 stars
( sol2070.in/2026/02/morte-do-pai-knausgaard/ )
Quando soube da série de autoficção (memórias estruturadas como um romance) Minha Luta, de Karl Ove Knausgaard, interessei-me pouco. A vida de escritores é algo que não costuma me cativar, pelo contrário. Dá sono, especialmente se exagerar nas micro-angústias de artistas que vivem em seu mundo à parte da maioria das pessoas (o que felizmente não é o caso).
Agora, após ler cinco de suas excelentes ficções, não resisti à série de seis livros. A Morte do Pai (2009, 408 pgs), mesmo sendo só a primeira parte, já foi um dos melhores livros de memórias que li.
Entendi porque a série é unanimidade absoluta de crítica e até de certo público (10% da população norueguesa a leu), sendo considerado um dos maiores escritores vivos do país.
O que a diferencia (estou no segundo livro) é o agudo talento narrativo, a observação …
( sol2070.in/2026/02/morte-do-pai-knausgaard/ )
Quando soube da série de autoficção (memórias estruturadas como um romance) Minha Luta, de Karl Ove Knausgaard, interessei-me pouco. A vida de escritores é algo que não costuma me cativar, pelo contrário. Dá sono, especialmente se exagerar nas micro-angústias de artistas que vivem em seu mundo à parte da maioria das pessoas (o que felizmente não é o caso).
Agora, após ler cinco de suas excelentes ficções, não resisti à série de seis livros. A Morte do Pai (2009, 408 pgs), mesmo sendo só a primeira parte, já foi um dos melhores livros de memórias que li.
Entendi porque a série é unanimidade absoluta de crítica e até de certo público (10% da população norueguesa a leu), sendo considerado um dos maiores escritores vivos do país.
O que a diferencia (estou no segundo livro) é o agudo talento narrativo, a observação cotidiana minuciosa que consegue não ser maçante, a honestidade brutal e a personalidade.
A prosa não tem adornos, narra de modo direto e simples tudo o que vê e pensa — em digressões que dariam bons ensaios. Mas, ao transcorrer, o efeito acumulado transcende completamente o simples e objetivo, em direção a uma vastidão em todos os detalhes.
A narrativa não é cronológica. Parte do presente, vai e volta, incluindo a infância até o morte do pai, lá pelos 30 anos.
A honestidade do relato chegou a levantar controvérsias sobre como a família do escritor foi exposta, incluindo alcoolismo e negligências diversas. Seu tio chegou a processá-lo pelo modo como o pai foi retratado.
Também desnuda as próprias aflições e neuroses, principalmente os impulsos antissociais e alguma arrogância como enxerga outras pessoas, revelando aquele tipo de pessoa que talvez preferiríamos manter distância (o que também fizeram com ele, em boa parte).
Mesmo assim, surge um personagem fascinante. Já me identificava muito com a visão de autor que transparece em seus outros livros, especialmente o distanciamento de outsider, os aspectos sombrios e até suas preferências no rock.
O título da série, “Minha Luta”, em parte se refere à constante tensão entre o peso de seu mundo subjetivo — a maneira muito particular e marcada como percebe tudo — e a objetividade inalcançável de um mundo externo não transfigurado pela subjetividade.
É exatamente essa lente que torna a narrativa tão marcante.
Ele menciona que pegou da mãe o hábito de observar minuciosamente o comportamento das outras pessoas. Quando criança, ficavam conversando sobre as atitudes de quem encontravam, o que disseram e as possíveis motivações. Deve vir daí seu talento excepcional para descrever gente e acontecimentos.
Também termina sendo um retrato microcósmico da sociedade escandinava (se passa também na Suécia), incluindo os abismos emocionais e existenciais de que não estamos acostumados a ouvir sobre a vida nos países-modelo de “bem-estar social”. A família é de classe média, mais para baixa do que alta, com um estilo de vida simples para a Noruega, mas materialmente bastante confortável em comparação com países de muita desigualdade. Aquela comodidade da vida que em nada impede obsessões mais sombrias.
Isso aparece de uma forma como nunca vi na relação com o pai. E o processo de sua morte é tão chocante que parece ultrapassar a ficção.
Mas não é só angústia. Sobra beleza e até humor, talvez involuntário. A sinceridade sobre suas reações internas ocultas ao interagir com outras pessoas às vezes é hilária — para mim funcionando como um espelho.
Também foi uma leitura fascinante por mostrar de onde vêm muitas das coisas que aparecem em seus outros livros, como a alternância de epifanias existenciais e naturais com dimensões sombrias.
Um retrato memorável da profundidade e entrelaçamento da vida, daqueles em que a narração da existência se torna arte pura, como nos melhores romances.