sol2070@velhaestante.com.br reviewed Estação Perdido by China Miéville (Bas-Lag, #1)
New weird barroco
3 stars
( sol2070.in/2026/01/estacao-perdido-china-mieville/ )
Queria ler o inglês China Miéville faz tempo e experimentei Estação Perdido (Perdido Street Nation, 2000, 608 pgs). Terminei com impressões mistas, mas recomendo.
É o primeiro da série Bas-Lag, atualmente com três romances e um conto. Miéville também é famoso por seus escritos socialistas (o que, para mim, não acrescenta nada), além de ser um dos maiores autores do sub-gênero New Weird da ficção especulativa, com Jeff Vandermeer (por isso queria ler).
O gênero “weird” (estranho, bizarro) é a mistura de horror com ficção científica e fantasia popularizada por H.P. Lovecraft e outras pessoas a partir dos anos 1930. “New Weird” revitaliza o gênero e mescla elementos da ficção científica New Wave (com a qual faz trocadilho) dos anos 60 e 70, mais viajante.
Bas-Lag é um mundo steampunk (de passado futurista industrial) cheio de criaturas híbridas: pássaros falantes, …
( sol2070.in/2026/01/estacao-perdido-china-mieville/ )
Queria ler o inglês China Miéville faz tempo e experimentei Estação Perdido (Perdido Street Nation, 2000, 608 pgs). Terminei com impressões mistas, mas recomendo.
É o primeiro da série Bas-Lag, atualmente com três romances e um conto. Miéville também é famoso por seus escritos socialistas (o que, para mim, não acrescenta nada), além de ser um dos maiores autores do sub-gênero New Weird da ficção especulativa, com Jeff Vandermeer (por isso queria ler).
O gênero “weird” (estranho, bizarro) é a mistura de horror com ficção científica e fantasia popularizada por H.P. Lovecraft e outras pessoas a partir dos anos 1930. “New Weird” revitaliza o gênero e mescla elementos da ficção científica New Wave (com a qual faz trocadilho) dos anos 60 e 70, mais viajante.
Bas-Lag é um mundo steampunk (de passado futurista industrial) cheio de criaturas híbridas: pássaros falantes, pessoas com cabeça de inseto, anfíbias, geneticamente refeitas etc. Abriga Nova Crobuzon, a empesteada cidade onde se passa a estória do casal inter-espécie Isaac e Lin. Isaac é um cientista independente e Lin, uma artista khepri (humana insetóide). A narrativa vai aclimatando com esse mundo delirante e o enredo central só decola na metade do livro, sobre uma estranha lagarta e uma droga nova que efetiva comunhão com a mente de outras pessoas.
Não estou acostumado com fantasias desse tipo, em que parte significativa da prosa fica descrevendo as coisas que só existem nesse mundo. Por exemplo, queria faz tempo ler A Quinta Estação, de N.K. Jemisin, mas abandonei logo no começo exatamente por causa disso, pela preguiça de ter que absorver e processar grandes desovas de informação sobre como funciona esse mundo imaginário (mas ainda tentarei voltar a Jemisin).
Apesar de Miéville fazer isso com maestria, sem “infodumps” explícitos, a leitura inevitavelmente sobrecarrega-se de elementos a compreender. Quis abandonar o livro várias vezes também porque sentia que viajava longe demais na imaginação desse universo. Mas é dos raros que junta muito do que gosto: degeneração sociopolítica, personagens marginais, psicodelia, biologias e naturezas estranhas etc.
Como é um livro grande, deixei-o, então, em segundo plano, sem prioridade, lendo só pelo prazer, sem pressa de acabar para pegar o próximo da fila. Assim, consegui terminar facilmente, me entretendo muito mais.
Digo que minha impressão foi mista por causa disso: a pegada de entretenimento, quase juvenil, parece falar mais alto. No fundo, é uma caçada a monstrengos. Os romances de Jeff Vandermeer, por exemplo, também são estranhos e bizarros, mas sempre tocam em temas profundos, existenciais, até cósmicos.
Isso fez falta em Estação Perdido. Potencial tem de sobra nos elementos desse mundo. Como as monstruosas mariposas que se alimentam de sonhos e hipnotizam mortalmente com os desenhos psicodélicos de suas asas.
Miéville, ao definir a ficção Weird, afirmou que ela evoca um senso numinoso (emoção espiritual, de origem misteriosa ou que provoca espanto e maravilhamento). Sim, cheguei a sentir isso com o livro, mas pouco.
Ou seja, é a minha expectativa que é muito alta. Para quem gosta desse tipo de estória, é diversão garantida. A tradução de José Baltazar Pereira Júnior é ótima.
No Brasil, acabou de sair o volume dois, A Cicatriz. Aproveitando o lançamento, o ótimo Reinaldo José Lopes entrevistou China: Barbárie anda ganhando do socialismo ultimamente, diz escritor China Mièville.